Educar para a igualdade não tem idade
Fotografia: Tima Miroshnichenko (Via Unsplash).
Uma coisa é identificar que, na história da humanidade, "o racismo se impôs como crença e ideologia para garantir a manutenção de privilégios sociais, econômicos e políticos aos que se supõem racialmente superiores", como argumenta Lucilene Reginaldo, doutora em História Social, professora de História da África no Departamento de História e pesquisadora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.
Outra, bem diferente, é efetivamente responsabilizar cada setor da sociedade contemporânea pela desconstrução dessa estrutura, convidando indivíduos e organizações a reconhecerem a atual miscognição (ou ignorância) branca em seus trabalhos de letramento racial.
Ainda não é de comum costume questionar por que indivíduos com fenótipos específicos ocupam determinadas posições na sociedade.
Ao considerar tanto o presente, quanto o passado (por meio da trajetória familiar), é possível perceber que não é apenas a questão socioeconômica que determina o lugar das pessoas na estrutura social brasileira, mas também a questão etnico-racial e de gênero.
Embora a história das teorias raciais tenha sido desmontada por autores de várias gerações, a população brasileira descende de uma memória colonial escravista de quase quatro séculos, que recorda inconscientemente de um período na história do país no qual meninas brancas (com maior poder aquisitivo) eram presenteadas com bonecas negras — com rostos de porcelana e roupinhas de finos tecidos para iniciar, em suas brincadeiras de “faz de conta”, o exercício de tornarem-se sinhás, na vida adulta —.
Acontece que esse futuro foi interrompido. Tanto por mérito de movimentos abolicionistas locais (também chamados de "revoltas"), quanto por razões de pressão econômica internacional, o cenário do território mudou. Marcado pela projeção de uma nação — recém-inventada por invasores, que colonizaram espaços e corpos e, depois, tornaram este território "independente" —, herdou-se uma complexa estrutura escravagista.
Os dados que compõem a formação deste Estado-nação evidenciam a falta de reparação histórica (às pessoas sistematicamente violadas em seus direitos), principal razão pela desigualdade instaurada. Apesar dela, em alguns lugares mais; outros, menos, vem sendo ampliada a consciência coletiva de que pessoas de pele escura têm poucas chances de mobilidade social ascendente, estando mais vulneráveis a violências de todos os tipos.
Não, não somos todos iguais
Entre os frutos do Movimento Negro está a luta pela conscientização da existência dos lugares de fala, que existem em todo discurso. Afinal, se há discrepância entre a propaganda do Brasil como “um país de todos" e as evidências das disparidades que ele mantém, só por meio de mobilizações entre indivíduos e comunidades é que se enfrenta o racismo por meio da conquista de direitos civis e políticos.
Hoje, iniciativas como a Boneca Pretta, Cadê Nossa Boneca e Mãe de Cria (pela transformação do caminho excludente trilhado) merecem todo o reconhecimento e importância como ações pela representatividade negra, "para tornar esse microcosmo do mundo adulto, ao qual são expostas as crianças, em um campo mais diverso de possibilidades e existências", conforme apuração da matéria da Rio On Watch.
Afinal, a representatividade importa não apenas à organização de grupos que lutam por direitos, mas, também, faz parte da formação social e intelectual de qualquer indivíduo que, desde cedo, é apresentado às normas, papéis e espaços sociais reproduzidos em brinquedos e brincadeiras.
Acessando representações diversas, "[...] uma criança branca percebe, desde sempre, que o mundo é um lugar diverso, o que apresenta a ela a ideia de pertencimento ao todo e que outros fenótipos são tão valorosos quanto o dela", ainda conforme a matéria da Rio On Watch.
A reconstrução a ser feita é de caráter educacional, por um imaginário que supere heranças de mentalidade colonial
Cada atravessamento torna-se referência na construção de visões de mundo, sonhos, desejos e modelos de relacionamento (consigo e com os outros).
Por mais que a infância signifique uma fase em que se vive o auge do aprendizado, porque "tudo é uma descoberta e é nesse período onde o reconhecimento começa a surgir", o processo de construção de identidade e subjetividades é contínuo, na vida. Portanto, o letramento etnico-racial é um trabalho individual e coletivo, e deve extrapolar a falácia de que "lugar de aprender é somente na escola".
A infância é, sim, momento de discutir racismo. A escola deve ser capaz de estimular algum senso crítico, nas crianças, pela conscientização sobre as questões relacionadas à raça e etnia. Mas, no Brasil, as escolas ainda são espaços de manutenção de exclusividades; a educação brasileira, de forma geral e crônica, sofre com a desigualdade racial, como evidenciam os dados mais recentes sobre o tema.
Então, o que fazer com as nossas crianças crescidas: nós, os adultos com pouca ou nenhuma educação étnico-racial?
Desde a base ao topo da pirâmide, para além das salas de aula, cada indivíduo deve se reconhecer participante ativo de um projeto educacional como maneira de enxergar e existir no mundo. Considerando o processo natural e constante de aprendizado e readaptação do ser humano, a educação é tema de cada dia e independe da fase da vida.
Mudanças no inconsciente coletivo a partir de medidas conscientes é o que todos precisam. A consciência étnico-racial se refere à compreensão e reconhecimento das características étnicas e raciais próprias e dos outros, assim como a conscientização sobre as questões relacionadas à raça e etnia. Esse conceito envolve dimensões culturais, históricas e sociais associadas a esses elementos.
"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar"
As instituições e organizações devem partilhar dessa perspectiva de aprendizado coletivo pela responsabilidade social. Apenas por meio de ações promovidas continuamente (sobre letramento e educação pela diversidade) é que se entende o esforço de gerações pela luta antirracista.
Não se trata de um tema para campanhas (partidárias) efêmeras ou para suas metas locais, mas para a melhoria de todas as relações entre povos e territórios.
Referências
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