Uma trança é muito mais que um penteado
Fotografia: Adefemi Adedoyin (via Pexels).
Quando o assunto é cabelo bonito e saudável, o que vem à sua mente primeiro? As imagens e descrições imaginadas se encaixam em qual padrão de origem étnica ou de aparência física?
Mais do que expressar preferências estéticas particulares de cada pessoa, as respostas a essas perguntas imprimem o que existe no inconsciente coletivo de uma sociedade, referência do que é considerado esteticamente belo.
De acordo com o estudo "Trança afro - a cultura do cabelo subalterno", da mesma autora do relato abaixo:
“Nas lojas de cosméticos, “70% dos produtos destinados a cabelos crespos e muito crespos usavam, de estratégia de comunicação, denominações como produtos para domar seus cabelos; destinados a cabelos rebeldes, usando os meios de comunicação hegemônicos para difundir a imagem, ligada ao cabelo afro, como cabelo pixaim, cabelo ‘ruim’, cabelo duro, bombril, ninho de passarinho, entre outras formas.”
Não à toa, nos anos 60, a empresa Fuller Products Company faturou mais de 10 milhões de dólares com produtos que prometiam o “embranquecimento" da população negra. Daí surge o movimento “Black is Beautiful”, nos Estados Unidos, a partir das lutas civis para afirmar ao mundo, por meio da política do orgulho negro, quão importante é a elevação da auto-estima desses povos. De cabelos black power ou trançados, a população saiu às ruas ao natural para valorizar a estética negra e suas origens, marcando um dos principais movimentos de resistência negra que correu o mundo.
Chegando no Brasil, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, o Movimento marcou a mudança de hábitos na cultura negra: a troca do pente quente, que deixava o cabelo com cheiro de queimado, pelo garfo que deixava o cabelo definido e “lá no alto”.
Ainda assim, é possível encontrar os ideais eugenistas entre nós — presentes nos nomes pejorativos usados para qualificar a beleza de pessoas pretas e pardas —, mesmo que o uso desses termos possa ser penalizado como injúria racial.
Embora majoritariamente negra, a nação brasileira ainda importa suas referências estéticas de países estrangeiros que destoam da sua formação identitária. Prevalece o fenotípico branco e europeu, positivamente representado no protagonismo das novelas e programações televisivas; propagandas de cosméticos e concursos de beleza.
Na roupagem de "skincare clareador" ou descoloração, o branqueamento ainda é crescente em grande parte do mundo, incluindo regiões da África; Ásia e Caribe; comunidades da diáspora na Europa; América do Norte. Apesar de existir um movimento contrário crescente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a indústria de clareamento de pele atingirá um valor de US$ 31,2 bilhões este ano.
No passado, táticas de comunicação
Como tudo na cultura de resistência dentro do tempo e espaços da diáspora negra, as tranças afro são mais do que um recurso de beleza.
Não existe confirmação exata de há quantos mil anos as tranças existem, mas é fato que estavam lá muito antes de Cristo. Cleópatra (viva entre 69 a.C. e 30 a.C), negra que teve sua cor roubada, esbanjava sua riqueza fazendo tranças até com fios de ouro (já que esse era um penteado comum para os poderosos ostentarem sua condição econômico-financeira).
Já no Brasil colonial, as tranças afro tiveram um papel fundamental na sobrevivência dos povos que foram escravizados desde a África.
Ainda que lá, cada região africana utilizasse, tradicionalmente, penteados que diziam sobre a estética particular; padrões; status; idade; filiação étnica de cada nacionalidade (erroneamente chamada de tribo, até pouco tempo atrás), no território brasileiro, esses diferentes povos aprenderam a se comunicar entre si por sistemas de linguagem criados especialmente para a sua sobrevivência ao regime escravista.
As tranças, então, eram utilizadas para esconder desenhos de mapas de fuga e rotas da liberdade, além de guardarem objetos valiosos.
No presente, a força da raíz resiste
Não existe a possibilidade de esvaziamento de toda a história trançada por esses penteados. Ela percorre desde as raízes à pontas dos fios afrodescendentes.
"O axé, entre os Iorubás, é o poder vital, a força, a energia, de cada ser e de cada coisa. Todas as práticas renovadoras do axé são centralizadas na cabeça.
Também, nela, estão determinados os locais que remetem os princípios geradores e ancestres. A cabeça é mimese do mundo simbolizado, onde estão os elementos da natureza e, depois de fixados, os princípios geradores do axé do corpo individual que, conjugado com o eu coletivo do terreiro, ampliarão cada vez mais os vínculos sagrados, éticos, morais, sociais e culturais do indivíduo com o grupo" (Trança afro: a cultura do cabelo subalterno - LODY, 2004, p. 69).
É fato que o sagrado sempre esteve presente na relação com o cabelo dos povos negros. Essa presença é preservada no trançar contínuo dos fios como transmissão da cosmovisão africana circular da vida, repassada de geração em geração. O ato de trançar também compõe um dos elementos da oralidade, como a contação de histórias feita pelos Griôs. Ambos transmitem os ensinamentos, no exemplo, no toque, nos gestos que guardam e perpetuam as memórias e tradições africanas.
Normalmente, o trançar é feito por uma matriarca em um(a) familiar mais jovem. Depois, é devolvido dos mais jovens aos mais velhos, em um vai-e-vem de tradições como o ciclo da vida.
No entanto, a falta de esclarecimento a respeito das origens desses costumes acabaram por deixar que se perdessem, em algumas famílias, as histórias que fortalecem essas identidades e empoderam as gerações.
A desagregação familiar do regime escravista — bem como as proibições de manifestações culturais e a imposição dos padrões culturais e estéticos da Europa — são responsáveis diretos pelas discriminações sociais e conflitos de autoestima da população afrodescendente. Nas famílias e escolas do Brasil, os corpos negros seguem sendo alvo principal de discriminações.
Todavia, não faltam modelos de como começar a atuar na contramão desse problema. A iniciativa Trançando Histórias, projeto da professora Cleide Magesk, começou na sala de aula e se tornou documentário e podcast, impulsionando jovens a se colocarem no centro do seu processo histórico.
Outra atividade inédita que segue expandindo no país é a Tranças no Mapa, 1º Cartografia SocioCultural de Trancistas, que convida a participação de profissionais do Distrito Federal e seu entorno.
Contudo, seguem sendo urgentes, projetos de fortalecimento do orgulho negro para enfrentamento dos desafios atrelados à falta de representatividade desse grupo socialmente minorizado. Ainda há muita desconstrução pendente, no imaginário da população que, no lugar do conhecimento sobre a história africana e afrodescendente, absorveu estereótipos e caricaturas xenofóbicos estrategicamente construídos a respeito desses povos.
Na contramão da tentativa de apagamento, e como consequência das lutas do Movimento Negro, das famílias e educadores letrados, é notável o recente aumento das transições capilares como um movimento (interno) de reconhecimento (mais do que externo, de tendência do consumo); uma ação de valoriação do fenótipo negro, empoderamento da beleza natural, diversa e de libertação estético-social para as póximas gerações.
Também se deve, ao trançar dos fios de cabelos negros, essa prática que transcende a busca por um simples penteado.
As tranças afro resistem como forma de assegurar a identidade e beleza de povos cuja auto-estima foi sistematicamente roubada, mas que aos poucos vem sendo recuperada, tanto por quem se deixa trançar, quanto por quem trança ou (de outras formas) incentiva esse trabalho essencialmente matriarcal — responsável pelo empreendedorismo e liberdade financeira de muitas mulheres negras, no Brasil —.
Referências
ANDRADE, Lizandra. Tranças, ancestralidade e resistência. Portal Primeiros Negros.
ROLIM, Maria Rita. Tranças: além da estética uma forma de sobrevivência. Portal Em Pauta.
VENTURA, Dalia. 'Tranças da liberdade': como penteados ajudaram escravizados em fugas. BBC News Brasil.
HENRIK, Juliana. Tranças africanas: eis a história!. Voz das Comunidades.
VENTURA, Dalia. Ambiente escolar é contaminado por preconceito e discriminação.
VENTURA, Dalia. 'Tranças no Mapa': projeto faz mapeamento de trancistas do DF e Entorno.
VENTURA, Dalia. Documentário sobre trancismo produzido por jovens de São Luís chega ao Globoplay.
VENTURA, Dalia. 1º Mapeamento Sociocultural de Trancistas Negras do Distrito Federal e Entorno.
VENTURA, Dalia. Trançando histórias e cabelos, professora valoriza ancestralidade de estudantes.
VENTURA, Dalia. Documentário Trançando Histórias Culminância.
VENTURA, Dalia. Projeto Pixaim: questionamento de padrões de beleza e incentivo à aceitação do dito cabelo ruim.

