Nem tão abolida assim... A escravidão, nos dias atuais.

Mãos (de uma pessoa negra) erguidas em direção aos céus, exibindo uma espécie de algema quebrada, simbolizando a celebração e/ou busca pela liberdade.

Fotografia: Orythys Martinique (via Unsplash)

Embora o dia 13 de maio de 1888 seja uma data historicamente significativa para o povo negro no Brasil — porque marca a assinatura da Lei Áurea, que oficialmente aboliu a escravidão no país —, na prática, muitos desafios foram enfrentados pela população direta e indiretamente afetada pelo Regime Escravista (base da economia nacional por 388 anos).

Afinal, o que fariam, então, cerca dos 90% escravizados que já haviam conquistado a sua liberdade quando a abolição foi promulgada?

Abandonados à própria sorte; sem acesso à terra, educação, saúde ou apoio governamental para enfrentar a transição à vida livre; muitos recém-libertos permaneceram nos locais onde foram escravizados, trabalhando nas mesmas plantações, mas supostamente como trabalhadores assalariados ou meeiros. 


Ou seja, a libertação legal dos 700 mil escravizados não acompanhou qualquer tipo de amparo socioeconômico imediato às suas condições de vida. Ao contrário de outros países — como os Estados Unidos que, ao abolir a escravidão, implementou políticas de reparação e indenização —, o Brasil não estrutuou qualquer ação substancial às pessoas "libertas" (e seu descendentes).

Essa ausência de um plano efetivo de inclusão social e econômica para os ex-escravizados resultou em condições precárias de vida, marginalização e contínua discriminação, fato que contribuiu para a perpetuação de desigualdades sociais por meio da violação dos direitos da população sobrevivente.

Conhecer a trajetória das leis brasileiras voltadas aos direitos da população negra no contexto escravista e pós-abolição é ferramenta crucial para compreender uma conta que nunca fechou: de um lado, havia promessas legislativas. De outro, uma realidade que as tornava ineficazes (como se verifica na linha do tempo ilustrada abaixo).

Linha do tempo comentada conforme expectativas e realidades promovidas por leis brasileiras históricas.

Essa linha do tempo destaca a lacuna entre as promessas legais (expectativa) e a efetiva implementação de direitos (realidade) para a população negra no Brasil, evidenciando como a abolição, por si só, não foi capaz de transformar as condições estruturais de desigualdade racial.

O legado dessas políticas e práticas históricas continua a influenciar a sociedade brasileira contemporânea.

Não é à toa que, mesmo sendo a maior parte dos habitantes do Brasil (56%), a população negra:

  • é a maior impactada pela falta de Direitos Humanos, sendo desproporcionalmente afetada pela violência no Brasil. Em análises do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 72% dos homicídios no país entre 2012 e 2022 foram de pessoas pretas ou pardas, apesar de representarem pouco mais da metade da população.

  • ainda em 2025, é maioria absoluta entre pessoas em situação de rua: elas representam mais de 60% das pessoas em situação de rua, com homens negros concentrando as maiores taxas.

  • é a que mais sofre com falta de saneamento básico, esgoto e condições mínimas de convivência. Segundo dados do IBGE e análises sobre desigualdades sociais, pessoas negras têm menores taxas de acesso a serviços básicos de água tratada e esgotamento sanitário, — ficando aquém da média nacional mesmo com melhorias recentes nas estatísticas —.

  • tem uma média salarial mais baixa quando comparada à de pessoas brancas. Ainda de acordo com relatórios oficiais, mesmo com níveis educativos similares em várias faixas, pessoas negras — especialmente pretas — continuam recebendo salários inferiores. Em pesquisas recentes do Governo Federal, a diferença de rendimento entre negros e brancos pode chegar a mais de 30% em algumas faixas de escolaridade.

  • responde por um percentual elevado em ocupações informais. Nos números oficiosos mais recentes, cerca de 46,8% das mulheres negras e 46,6% dos homens negros estavam em trabalho informal, comparados a aproximadamente 33–34% entre trabalhadores brancos, mostrando que a informalidade ainda pesa de forma desigual.

  • em se tratando das mulheres, as disparidades são ainda mais acentuadas. No mercado de trabalho, a diferença de participação em empregos formais entre mulheres negras e mulheres brancas persiste, com cerca de quase 6 pontos percentuais de diferença, sem avanços significativos ao longo da última década, de acordo com o Relatório Agenda Transversal de Igualdade Racial do Governo Federal.

Até quando seremos um dos países mais desiguais do mundo, enquanto os 10% mais ricos, no Brasil, possuem quase 80% do patrimônio privado do país?

"O Bolsa Família conseguiu reduzir uma parte das desigualdades nas camadas mais pobres da população", recorda Lucas Chancel (principal autor do relatório e codiretor do Laboratório das Desigualdades Mundiais).

Ainda assim, o Brasil carece de reforma tributária e de reforma agrária, ou a desigualdade não deixará de compor suas estruturas. Há muito trabalho a ser feito, uma vez que as desigualdades sociais são totalmente entrecortadas pelas raciais.

É chegada a era da inteligência artificial! São anunciadas a 4ª e até a 5ª Revolução Industrial e, a cada ano, cresce o número de pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão. "Mais recentemente, um dado concreto expõe a extensão do fenômeno: mais de 1 milhão de pessoas vivem em situação de 'escravidão contemporânea', no Brasil." A estimativa é do Global Slavery Index 2023, índice da escravidão mundial.

Por isso, ainda se faz necessária, neste território, a reivindicação pela responsabilização da máquina pública por promover:

  • políticas de educação e de reparação — pela diversidade e equidade social, fundamentadas nos princípios de justiça, em respeito aos direitos humanos —;

  • ações de igualdade de direitos civis para corrigir injustiças históricas e sistemáticas, nas camadas pública e privada;

  • oportunidades de um presente (e futuro) mais inclusivo para pessoas negras (pretas e pardas), — a fim de que todos os cidadãos tenham igualdade de oportunidades de produzir e se beneficiar do desenvolvimento econômico e social do país —.

Superar a pobreza não é um gesto de caridade. É um ato de justiça. É a proteção de um direito humano fundamental, o direito à dignidade e a uma vida decente. Enquanto a pobreza persistir, não haverá verdadeira liberdade.
— Nelson Mandela

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